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Arquivo MAT — Maria Aura Troçolo


Este espaço é dedicado ao trabalho de Maria Aura Troçolo — designer portuguesa que, nas últimas décadas do século XX, deixou uma marca discreta mas decisiva no Design de Interiores, no mobiliário contemporâneo e na cultura estética de uma época que ainda hoje permanece pouco documentada.

A página não estava prevista. Mas há muito que sinto a necessidade de tornar visível um percurso que, por ter sido interrompido cedo demais — ainda nos primórdios da internet — ficou espalhado por memórias, fotografias soltas e notas de trabalho. Não é um discurso póstumo; é apenas a vontade de mostrar obra humana: feita de imaginação, técnica, risco e inquietação.

Primeiros passos


O seu caminho começou num conflito quase permanente entre a dúvida e a urgência de fazer.

A formação clássica na Fundação Ricardo Espírito Santo deu-lhe o gosto pelo desenho, pela técnica e pela disciplina. Mas, ainda durante o curso, percebeu que aquela serenidade não chegava: precisava de ir mais longe, de compreender o que existe antes e depois do desenho — produção, materiais, custos, processos.


Essa inquietação levou-a à Escola António Arroio, às Belas-Artes, e sobretudo à FOC, onde descobriu o lado estrutural do Design: planeamento, orçamentos, fabrico. “Aprendi a trabalhar na fábrica”, dizia. E quis manter-se próxima dessa prática.


Estágios posteriores — Itália, Inglaterra (equipamento hospitalar), França — abriram-lhe o olhar para outras realidades, ligando-a ao universo da galeria, da hotelaria e das grandes infraestruturas. Entre avanços e recuos, foi construindo um percurso exigente, quase sempre acompanhado por uma dúvida profunda sobre o seu próprio valor — traço que nunca a impediu de criar, arriscar e defender o que acreditava.



Atelier e prática profissional


Com atelier em nome próprio desde 1972, atravessou anos turbulentos — do pós-25 de Abril às transformações económicas dos anos 80 e 90 — sempre com uma energia rara e uma integridade absoluta.


Trabalhou com diversos ateliers e arquitectos, entre eles Luís Possolo, Pedro Emauz, João de Almeida, Vasconcelos Esteves e Pedro Ferreira.


Desenvolveu projectos em múltiplas áreas:


Habitação

Espaços comerciais

Hotelaria

Museus

Bancos

Equipamento hospitalar

Projectos internacionais, incluindo trabalho na Guiné-Bissau


A diversidade dos projectos era acompanhada por um interesse contínuo em compreender materiais, métodos e contextos. Era, acima de tudo, uma designer que fazia — que queria ver as coisas construídas.




Uma vida curta, uma obra extensa


A vida de Maria Aura Troçolo foi breve, mas intensa.

Apesar de uma obra vasta — visível em casas, lojas, serviços públicos e objectos que continuam dispersos — permaneceu quase sempre na sombra de uma excessiva discrição.


Numa época em que cliques e métricas valem mais que conteúdo, parece essencial recuperar o trabalho de quem criou com rigor, inquietação e compromisso.

Este arquivo — ainda em construção — procura reunir fragmentos de um percurso que merece ser conhecido.

Artebruta e prática comercial


Em 1985 abriu, no Bairro Alto, a loja Artebruta, dedicada à importação de Design contemporâneo e à exportação de peças produzidas em atelier próprio.

Na altura, apostar em zonas históricas não tinha nada a ver com a dinâmica de hoje: era preciso arriscar, trazer para ruas menos óbvias uma clientela ainda muito conservadora.


Em 1992, abre um segundo espaço na Rua da Voz do Operário, vocacionado para mobiliário de escritório e acompanhamento de projectos nesta área.